Arquivo da tag: relações familiares

Fibromialgia e Relações Familiares

Por: https://repositorio.uniceub.br/jspui/handle/123456789/2801

Fibromialgia

De acordo com Bennet (1999, citado em Fernandes, 2003), existem outros sintomas relacionados à síndrome que não constam no diagnóstico oficial do Colégio Americano de Reumatologia, são eles: síndrome das pernas inquietas que são parestesias e agitação das pernas durante o estágio dois do sono; síndrome do colón irritável que são alterações nos hábitos intestinais, variando entre prisões de ventre ou diarréias; síndrome da bexiga irritada que é o aumento da freqüência das micções e disúria (dificuldades ao urinar). Problemas ginecológicos, tonturas, rigidez muscular e intolerância ao frio.

Apesar de se admitir a existência da fibromialgia, ainda que sob vários nomes, até recentemente não tinha tido nenhum critério oficial de diagnósticos reconhecidos por alguma instituição médica importante. Ainda hoje, não existem exames laboratoriais para diagnosticar a Síndrome Fibromiálgica – SFM.

O diagnóstico se faz valendo-se dos seguintes critérios oficiais desen volvidos para a SFM pelo American College of Rheumatology (Colégio Americano de Reumatología; ACR) em 1990: dor crônica, generalizada, músculo esquelética por mais de três meses em cada um dos quatro quadrantes do corpo. (“Dor generalizada” significa dores acima e abaixo da cintura e em ambos lados do corpo); ausência de outra doença sistêmica que pudesse ser a causa da dor subjacente (tal como a artrite reumatóide, lupus ou problemas da tiróides); e múltiplos pontos sensíveis à dor (ou pontos de extrema sensibilidade) em lugares característicos (veja a Figura 1). Há 18 pontos sensíveis que os doutores procuram ao fazer um diagnóstico de fibromialgia. Conforme os requisitos do ACR para que se possa considerar um paciente com fibromialgia, ele deve ter 11 destes 18 pontos. Devem-se aplicar aproximadamente quatro quilogramas de pressão (ou cerca de nove libras) a um ponto sensível, e o paciente deve indicar quais os lugares dos pontos sensíveis são dolorosos.

Figura 1- pontos sensíveis anatômicos especificamente relacionados com a SFM, de acordo com (The American College Of Rheumatology – ACR). Fonte: Nacional Fibromialgia Partnership, Copyright 2001.

(1,2) Occipital : bilateral, nos pontos de inserção dos músculos suboccipitais; (3,4) Cervical inferior: bilateral, nos aspectos anteriores dos espaços intertransversais entre as vértebras C5-C7; (5,6) Trapézios: bilateral, no ponto médio do borde superior; (7,8) Supraespinhais: bilateral, nos pontos de origem, supraescapular cerca do borde meio; (9,10) Segunda costela: bilateral, nas segundas articulações costocondrales, um pouco lateral às articulações nas superfícies superiores; (11,12) Epicóndilo lateral: bilateral, 2 cm. distal aos epicóndilos/; (13,14) Glúteo: bilateral, nos quadrantes superiores externos das nádegas no vinco anterior do músculo; 15,16) Trocánter Maior: bilateral, posterior à protuberância trocantérica; (17,18) Joelho: bilateral, na almofadinha medial de gordura cerca da linha da articulação.

Segundo sugerem os critérios do ACR, um diagnóstico de fibromialgia requer uma avaliação “real” do paciente por um médico hábil no diagnóstico de fibromialgia.

Já que os pacientes não estão certos da origem anatômica específica da dor em seu corpo, não se aconselha o autodiagnóstico. Já que as análises de laboratório são freqüentemente normais nos pacientes com SFM, é imprescindível que um médico angarie um histórico médico completo e leve a cabo um exame físico para um diagnóstico correto. Já que os sintomas da fibromialgia se assemelham aos de várias outras doenças, é necessário descartá-las antes de fazer um diagnóstico da mesma, entretanto um diagnóstico da SFM não exclui a possibilidade de que esteja presente outra condição. É necessário assegurar que nenhuma outra condição se confunda com a síndrome da fibromialgia, para poder iniciar o tratamento adequado (Franco, 2001). Pela primeira vez, os médicos poderiam identificar os pacientes com a SFM usando normas uniformes. Apesar do otimismo, os critérios tiveram seus defeitos. Em primeiro lugar, o paradigma dos pontos sensíveis, que diz que o paciente sente unicamente dores em lugares específicos do corpo. Não obstante, em estudos mais avançados começaram a sugerir que pacientes com a SFM são sensíveis aos estímulos dolorosos em qualquer lugar do corpo e não unicamente nos pontos anatômicos identificados pelo ACR.

Hoje em dia, está reconhecido geralmente que a dor estendida pelo corpo é típica da fibromialgia. Segundo, logo começou ser óbvia que a sensibilidade de um paciente varia de intensidade durante o dia. Além, dos pacientes nem sempre apresentarem dores nos quatro quadrantes do corpo. Alguns sofreram da dor unilateral; outros sentiram-na somente na parte superior ou inferior do corpo. Terceiro, os exames feitos nos pontos sensíveis, por doutores eram também problemáticos desde que dependem do julgamento humano. Apesar das falhas, os critérios do ACR, junto com os diagnósticos diferenciais, são ferramentas utilizadas para se identificar um quadro fibromialgico (Franco, 2001).

As causas são desconhecidas, mas segundo Yunus (2002, citado em Fernandes, 2003), parecem estar relacionadas com a desregulação de determinadas substâncias do sistema nervoso central. O stress psicológico, a patologia imunológica e endocrinológica parecem contribuir para o desenvolvimento ou manutenção desta situação clínica. Diversos estudos mostraram que os sintomas da fibromialgia devem ser decorrentes das alterações nos mecanismos de modulação da dor, onde se encontra uma diminuição dos níveis de serotonina (substância analgésica) e um aumento dos níveis de substância P (substância algógena), no sistema nervoso central, em indivíduos geneticamente predispostos, sendo assim os pacientes portadores de fibromialgia são extremamente “queixosos e doloridos”. Há estudos mostrando uma diminuição da perfusão sanguínea no tálamo e núcleo caudado, importantes regiões do cérebro envolvidas com a percepção dolorosa. Também encontramos os distúrbios do sono bem como uma piora de suas queixas com o stress emocional. Pelo estado de dor crônica os pacientes tornam-se inativos e conseqüentemente descondicionados, sendo assim, o seu tratamento jamais pode ser realizado apenas com medicamentos. Para Goldstein (1996, citado em Fernandes, 2003), a fibromialgia tem base genética e é conseqüência de alterações no sistema límbico, decorrentes de experiências traumáticas na infância, doenças e acidentes. Segundo esse autor, o sistema nervoso do sujeito com fibromialgia não consegue lidar de maneira seletiva com as informações vindas do meio-ambiente, do corpo, ou geradas pelo próprio cérebro, em decorrência de disfunções dos circuitos neurais. Bennet (1999, citado em Fernandes, 2003), afirma que: a fibromialgia seria desencadeada por estímulos aversivos externos tais como: quadros virais, traumas físicos, acidentes, esforço físico excessivo, experiências traumáticas durante a infância e doenças graves. Knoplich (2001), fala que a justificativa mais freqüente para as dores musculares na SFM seria contrações musculares anormalmente prolongadas, que causam contração das artérias e veias que se encontram dentro do músculo e a hipóxia (falta de oxigenação no músculo), como resultado pode haver uma morte celular de algumas fibras e músculos, ou seja, uma necrose, a mesma formaria os nós ou tender points.

Esta doença atinge homens, mulheres e crianças de todas as etnias e grupos socioeconômicos em número ainda por definir, mas que se pensa ser elevado. De acordo com Franco (2001), não se pode entender e ajudar uma pessoa com fibromialgia, tento como foco a dor é necessário entender o contexto em que a pessoa está inserida para minimizar o sofrimento e melhorar a qualidade de vida. Os aspectos psicológicos envolvidos na doença são muito importantes, pois podem prejudicar o bem estar da pessoa. A relação que existe entre os aspectos psicológicos e a síndrome fibromiálgica vai desde da necessidade de assumir a enfermidade e as limitações, até seu estado de animo, passando pela capacidade de enfrentar as situações problemáticas, o manejo de situações familiares, sociais e laborais, em geral sua qualidade de vida. Os sintomas da fibromialgia podem provocar problemas que afetam a qualidade de vida, estado de ânimo incluindo a auto-estima da pessoa. Por este motivo é importante o estudo dos aspectos psicológicos. Os problemas mais comuns associados a fibromialgia são a ansiedade e a depressão, ainda que apareçam com muita freqüência não são considerados fatores determinantes da síndrome. A ansiedade é uma resposta do corpo frente a estímulos aversivos ao organismo, caracterizada por sintomas de mal estar e inquietude. Porém resposta de ansiedade pode generaliza-se a qualquer situação independente do estímulo ser ou não aversivo. A ansiedade pode agravar a condição dolorosa, já que o corpo não esta preparado para conviver ou adaptar-se a esta situação (Fernandes, 2003). A definição de depressão da Classificação Internacional de Doenças (CID – 10), pela Organização Mundial de Saúde (OMS), caracteriza-se por graus variados de intensidade, nos episódios típicos, humor deprimido, perda de interesse e prazer nas atividades, energia diminuída levando a uma fadiga aumentada e atividade diminuída. Podem ocorrer também idéias suicidas. Ambos processos depressão e ansiedade agravam os sintomas principais da fibromialgia. O que pode provocar a entrada em um círculo onde os sintomas o mal– estar vão aumentando e diminuindo a capacidade do indivíduo de enfrentar as circunstâncias que o rodeia. Dor persistente conduz ao desenvolvimento de pensamentos negativos que causam o próprio fracasso. Os pacientes podem, segundo Ackerman (1986), acreditar que porque não podem fazer tanto quanto uma pessoa “normal”, são de menor valor. Eles generalizam a inabilidade em executar certas tarefas em uma inabilidade de atuação em um contexto social mais amplo.

Estilos de pensamento catastróficos evoluem e podem levar a um sentimento de invalidez e desesperança. Esses pensamentos arruínam a confiança do indivíduo e resultam em depressão, que por sua vez afeta a percepção de dor e dificulta a adesão ao tratamento (Chaitow, 2002). A gravidade dos sintomas da fibromialgia torna esta situação clínica não só debilitante como também, freqüentemente, incapacitante, embora o doente apresente, muitas vezes, estar bem. Até à data não há análises ou testes que comprovem a existência desta doença. Individualmente, os sintomas são comuns a outras situações clínicas, mas a conjugação deles por um período de tempo prolongado numa pessoa que anteriormente não padecia deles e com uma tal gravidade que provoca alteração radical na rotina da pessoa permite que se faça o diagnóstico por exclusão. Estilos de pensamento catastróficos evoluem e podem levar a um sentimento de invalidez e desesperança. Esses pensamentos arruínam a confiança do indivíduo e resultam em depressão, que por sua vez afeta a percepção de dor e dificulta a adesão ao tratamento (Chaitow, 2002). A gravidade dos sintomas da fibromialgia torna esta situação clínica não só debilitante como também, freqüentemente, incapacitante, embora o doente apresente, muitas vezes, estar bem. Até à data não há análises ou testes que comprovem a existência desta doença. Individualmente, os sintomas são comuns a outras situações clínicas, mas a conjugação deles por um período de tempo prolongado numa pessoa que anteriormente não padecia deles e com uma tal gravidade que provoca alteração radical na rotina da pessoa permite que se faça o diagnóstico por exclusão.

Fibromialgia e relações familiares

Na idade média, a família era responsável pela transmissão de bens e nomes, não tinha uma função afetiva. A partir do século XVIII a família começa a distanciar-se da sociedade, valorizar a intimidade da vida privada e ter necessidades de uma identidade, passando a se unir pelo sentimento. A instituição família passa a ser responsável pela transmissão de valores e conhecimentos.

Atualmente a família é caracterizada por um grupo de pessoas que compartilham circunstâncias históricas, culturais, sócias, econômicas e afetivas. A família ocupa lugar intermediário entre o indivíduo e a sociedade da qual ele faz parte, porém possuindo intimidade, organização e dinâmica própria (Scodelario, 2002). Alguns aspectos da experiência de vida são mais individuais que sociais, outros mais sociais que individuais, porém a vida é uma experiência compartilhada e compartilhável (Ackerman, 1986). A família constitui um sistema delimitado por fatores como: consangüinidade e afinidade, ela determina papéis e, por isto mesmo, gera seus próprios anti-sistemas, que são constituídos por estímulos internos e externos, os quais tendem a modificálo ou destruí-lo. Os estímulos internos são inerentes ao desenvolvimento social e intelectual dos atores; e os externos são caracterizados pela evolução da sociedade em que está inserido o grupo familiar. Na medida em que os envolvidos crescem e interagem socialmente com outros grupos ou culturas familiares, se modificam, alteram suas concepções de certo e errado, evoluem, miscigenam seus costumes e, por lógica, conflitam com os paradigmas de seu grupo familiar originário.

Estes conflitos, gerados pelos paradigmas apreendidos na interação social extra-grupo e intra-grupo, geram estímulos de ação e reação, os quais tendem a fomentar os antagonismos relacionais familiares, os quais podem se manifestar no relacionamento de progenitores com prole; entre cônjuges; e núcleo familiar (pais e filhos) com grande grupo familiar (conjunto de grupos familiares ligados entre si por laços de consangüinidade e afinidade) (Ackerman, 1986).

Em seu livro, Ackerman (1986), relata que para falar de diagnóstico e tratamento familiar é necessário construir um arcabouço teórico, onde se possa então elaborar hipóteses sobre a dinâmica familiar. São relevantes para o levantamento de dados a autonomia do indivíduo; sua integração emocional no grupo familiar, o ajustamento ou falta de ajustamento do indivíduo aos papéis 20 familiares e extrafamiliares; como comportamentos dos membros da família podem apoiar ou ameaçar o indivíduo.

De acordo com Ackerman (1986), a identidade psicológica de um indivíduo ou de um grupo familiar refere-se à direção, enquanto estabilidade, organização e expressão do comportamento em ação. No contexto de relação familiar, identidade psicológica refere-se aos elementos da identidade psíquica harmonizada, as lutas, valores, expectativas, ações, medos e problemas de adaptação, compartilhados ou Influenciados pelos membros da família. A identidade psicologia é um aspecto da vida familiar que determina regras e padrões familiares como: linhas de autoridade, diferenças sexuais etc. E determina também o equilíbrio entre diferenças e semelhanças entre o indivíduo e a família.

Em grupos familiares cujo equilíbrio entre a identidade psicologia familiar e individual não ocorram pode prejudicar a formação da identidade individual. A identidade psicológica e estabilidade do comportamento devem ser consideradas juntas, essa estabilidade é produto de processos complexos e interdependentes, os mais importantes seriam a permanecia da identidade ao longo do tempo, controle de conflitos, capacidade de mudar, aprender desempenhar novos papéis na vida e conseguir se desenvolver a partir destes processos, a identidade e estabilidade, que se expressam em ação. Na adaptação familiar e individual a adaptação bem sucedida é fundamental para a saúde emocional, enquanto a desadaptação leva ao colapso e a doença (Ackerman, 1986). A estabilidade agrupa a capacidade de manter a igualdade ou continuidade de uma pessoa ou de um grupo de pessoas através do tempo, sob a influência de contextos variados, assegurando a integridade e totalidade do comportamento pessoal perante o perigo de novas experiências caracterizando assim o equilíbrio. O mesmo é mantido através do funcionamento conjunto da percepção, memória, associação, julgamento, controle da emoção e ansiedade. A interação dos membros da família em seus respectivos papéis familiares determina a qualidade da estabilidade das relações familiares, afeta a capacidade de competir com o conflito familiar e restaura o equilíbrio após um estresse emocional. A adaptação efetiva exige equilíbrio entre a necessidade de proteger a igualdade, a continuidade e a necessidade de acomodar-se à mudança. O conflito diz respeito às relações do indivíduo com família, a falha em solucionar o conflito gera o colapso adaptativo e a doença. Ao verificar o significado do conflito do indivíduo e dos membros da família, pode se descobrir às relações entre colapsos adaptativos e doença em um sujeito e distúrbios nas relações familiares (Ackerman, 1986). A fibromialgia pode ser resultado de um colapso adaptativo, caso ela tenha surgido por uma falha do sujeito em solucionar o conflito familiar. Neste caso verificando a relação familiar, o psicólogo saberia como a doença estaria sendo Influenciada por um desarranjo familiar.

O conflito nas relações familiares pode ajudar ou prejudicar o sujeito. O conflito pode proporcionar o crescimento, prejudicar o equilíbrio emocional das relações familiares e a adaptação individual. No caso de pacientes com fibromialgia, em que mudanças e adaptações constantes são necessárias é essencial que os conflitos sejam trabalhados de modo a proporcionar ao paciente um crescimento. De acordo com Scodelario (2002), no processo de elaboração da rede das relações familiares deve-se desenvolver experiências reforçadoras que proporcionam maior integração entre seus membros, de modo a evitar experiências punitivas que seguiria por uma desintegração familiar ou até a inclusão da violência na dinâmica familiar. A permanente necessidade de fixar a identidade pessoal e de integrar as necessidades pessoais ao contexto da vida social e a tensão de equilibrar papéis familiares com papéis extrafamiliares é um elemento importante no surgimento de doenças (Ackerman,1986). Essa afirmação pode sugerir que a fibromialgia pode ser o resultado de uma eterna tensão em equilibrar as necessidades pessoais ao contexto social. Malebi (1999) faz referência à alguns estudos que mostram como variáveis familiares podem influenciar o curso da doença. Goldberg, Kerns e Rosenberg (1993, citados em Malebi, 1999) verificaram que o apoio do cônjuge é capaz de impedir o desenvolvimento de depressão em pacientes com dor crônica. Sander, Shpherd, Cleghorn e Wooford (1994, citado em Malebi, 1999) disseram haver evidências de que o estilo de interação da família pode influenciar a freqüência das queixas de dor e de intensidade a dor em pacientes adultos com dor crônica, com artrite reumatóide e fibromialgia.

De acordo com Rolland (1995), quando se fala em fibromialgia é fundamental observar o sistema criado pela interação da doença com um indivíduo, uma família ou algum outro sistema biopsicossocial.

E para analisar o relacionamento entre a dinâmica familiar ou individual com a doença crônica é necessária criar uma tipologia da mesma, com o objetivo de facilitar a criação de categoria entre várias doenças crônicas. Esta tipologia conceitualiza diferenças de início; curso; conseqüências e grau de incapacitação da enfermidade. Rolland (1995), classifica o início das doenças em agudo e gradual.

A fibromialgia exige da família um período de ajustamento prolongado e caso a família e o indivíduo não estejam preparados para estas mudanças o tratamento pode ficar comprometido ou aumentar o conflito familiar. Uma doença crônica, como a fibromialgia, muda vários aspectos da vida pessoal e familiar da pessoa acometida pela mesma. A família tem papel fundamental na mudança, pois ao mostrar capacidade de adaptação e mudança, o doente terá mais possibilidades de se adaptar e aprender a viver com a doença.

Os membros da família podem juntos auxiliar o tratamento ou podem destruir o mesmo, por exemplo, isolando o doente ou desencorajando-o (Oliveira, 2005).

O curso das doenças crônicas é dividido em três formas diferentes: progressiva, constante ou reincidente. Doença de curso constante ocorre um evento inicial depois o curso biológico se estabiliza. Neste caso a família e o indivíduo se defrontam com mudanças estáveis e previsíveis durante um considerável período de tempo. Ocorre a exaustão familiar sem a tensão de novas demandas de papel ao longo do tempo. A doença reincidente, por ser episódica, exige da família uma estruturação para lidar com períodos de crise. As doenças de curso progressivo seriam doenças sintomáticas com progressiva severidade, como a fibromialgia, a família e o indivíduo se defrontam com efeitos de um membro da família apresentando constantemente a sintomatologia, e diminuindo a capacidade de modo gradual ou progressivo.

Os períodos de alívio em relação às demandas são mínimos, isto significa para a família uma continua adaptação e mudança de papel. Uma tensão crescente nos familiares é provocada tanto pelos riscos de exaustão quanto pelo contínuo acréscimo de novas tarefas ao longo do tempo. Isto exige da família flexibilidade nas reorganizações interna de papéis e a disposição para utilizar recursos externos, como a terapia (Rolland, 1995).

De acordo com Ackerman (1986), as doenças seriam um controle homeostático das relações do indivíduo com o meio externo. O desenvolvimento superior do córtex no ser humano lhe proporcionou o poder de introspecção e a capacidade de prever futuros problemas de adaptação, e examinar quais as possíveis respostas à experiência, e portanto, exercer através da razão algum grau de discriminação e escolha quanto à forma preferida de adaptação social. Para Ackerman, (1986), não existe estabilidade quando se fala em saúde familiar, às famílias podem ser predominantemente saudáveis ou doentes, ou seja, pode se observar componentes de funcionamento familiar que são saudáveis e outros prejudiciais.

Falhas na adaptação familiar podem ser classificadas por sua profundidade e nocividade. De acordo com o modo de lidar com problemas familiares, a família pode alcançar soluções realísticas para seus problemas de modo a conter ou controlar os efeitos do problema enquanto elabora uma solução e também pode ser incapaz de encontrar soluções ou conter os efeitos destrutivos do conflito, neste caso os membros da família podem responder ao conflito com comportamentos impulsivos, inadequadamente destrutivos e prejudiciais, como o de depositar toda a tensão familiar em um ou mais membros da família. A fibromialgia pode se manifestar no indivíduo devido às tensões familiares depositadas nele, e enquanto não se dissolver esta tensão, o paciente pode continuar apresentando os sintomas da doença ou até intensificar os mesmos (Ackerman, 1986).

Independente do nível social e econômico observa-se que a vida familiar age como um tipo de corrente transmissora de conflito e ansiedade patogênicos. A família torna-se fonte de transmissão emocional doentia. A ligação de identidade individual e familiar é fundamental e difusa, tornando-se impossível o indivíduo separa-se dessa transmissão (Ackerman, 1986).

Os efeitos da ansiedade, estresse e conflito familiar são destrutivos, e podem ser sentidos por vários membros da família, passando de um membro ao outro. Porém um membro da família pode atingir uma imunidade parcial através da vitimização de um ou mais membros da família.

Existem várias famílias nas quais a doença psiquiátrica de um membro representa um resultado sintomático da necessidade de diversos membros da família, para se proteger a família sacrifica um membro ou vários, às vezes, a família é quase totalmente sucumbida, todos os membros demonstram uma desestruturação emocional porém de formas diferentes.

A alienação emocional, isolamento de membros da família, construção de barreiras, críticas a comunicação, o surgimento de facções e divisões familiares são evidências de conflitos e hostilidades que desintegram a unidade familiar. Essas tendências desmoralizam os membros da família.

Todas as tendências acima listadas são freqüentes em pessoas com fibromialgia, o psicólogo deve intervir de modo a desconstruir este tipo de relação entre o sujeito e sua família, para não prejudicar o tratamento do paciente (Ackerman, 1986).

A família como um grupo desenvolve um padrão principal: membros individuais ou grupos familiares podem emitir esse padrão, inventar padrões opostos ou representar padrões secundários, e as tensões situadas nas relações conjugais, ou nas relações entre pais e filhos ou entre outros podem ser oriundos de necessidades pessoais que não são compartilhadas pelo grupo. O estresse e os conflitos gerados por estas tensões podem influenciar o quadro de fibromialgia gerando a dor ou intensificando a mesma. Por isso o psicólogo deve estar atento aos padrões de comportamentos familiares para entender como o comportamento familiar esta interferindo nos comportamentos de doença e saúde (Ackerman, 1986). Graus de sucessos ou falhas de adaptação nos papéis familiares relacionam-se diretamente com o “estar bem”. O primeiro sintoma de desadaptação é expresso em um contexto, se com o passar do tempo, o conflito e a ansiedade excedem os recursos integrativos que o indivíduo mobiliza dentro da família, os processos de desorganização e incapacidade espalham-se para outros contextos, neste caso o colapso é oriundo da falta de apoio do grupo familiar.

O indivíduo com fibromialgia se depara sempre com novas situações que podem gerar estresse e ansiedade, por isso ele necessita de apoio intra familiar para ajudá-lo a se adaptar as novas situações advindas da síndrome Fibromialgia (Ackerman, 1986). Alguns pacientes com fibromialgia podem ser visto como indivíduos aflitos e com uma expressão sintomática da patologia, porém às vezes esta síndrome só é um indicativo de distúrbio familiar, pois a relação familiar é de grande importância na manutenção ou precipitação da doença.

O terapeuta deve tomar como ponto de partida o sintoma apresentado pelo indivíduo; e posteriormente se deslocar para o padrão de conflito no qual esse paciente está envolvido dentro do contexto familiar; procurando tornar claro o grau de envolvimento do conflito familiar com a doença, no caso a fibromialgia (Ackerman, 1986).

Pensando a família de pacientes com fibromialgia, como doente, sustento a idéia de que famílias que maltratam têm como característica básica o sofrimento psíquico, ou ainda são portadoras de transtornos mentais, o que evidência a necessidade de auxílio, independente da decisão que vai ser tomada posteriormente. Talvez a única alternativa em algumas situações seja o afastamento, mas nunca sem antes usar de todos os recursos possíveis para a reestruturação familiar (Scodelario, 2002).