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Mitos e verdades da alimentação do paciente em quimioterapia

Por: Instituto Vencer o Câncer

Além dos efeitos indesejados que a quimioterapia pode causar, o paciente oncológico também enfrenta uma série de dúvidas referentes ao que pode ou não comer durante o tratamento. Pacientes costumam pesquisar muito sobre a própria doença, e com tanto conteúdo contraditório na internet, ficam as perguntas. Carne de porco faz mal? Chá verde prejudica a químio? Tais questões não são irrelevantes. já que o risco de um paciente com câncer ter desnutrição é três vezes maior que o observado em portadores de outras doenças.

O Vencer o Câncer ouviu as nutricionistas Natalia Leonetti Lazzari, do A.C.Camargo Cancer Center, e Danielle de Souza Pereira, do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), que elencaram as dúvidas mais ouvidas nos ambulatórios oncológicos. Se você tiver alguma, envie para a gente!

— Posso comer carne de porco durante o tratamento, ou atrapalha o processo de cicatrização?

Não há nenhuma base científica sobre a relação do consumo da carne porco e o processo de cicatrização. As alegações de que atrapalham  o tratamento fazem parte da cultura alimentar da população, mas sem evidências. A carne de porco, que é a mais consumida no mundo, é rica em vitaminas do Complexo B, principalmente B6 e B12. A dica é que os pacientes prefiram carnes de porco magras, como o lombo, e que ele seja assado.

— E carne vermelha? Ela aumenta o tumor?

A ingestão de carne vermelha tem sido relacionada à predisposição para o desenvolvimento de alguns tipos de câncer, principalmente de intestino. As nitrosaminas – compostos produzidos a partir de nitritos e aminas – são conhecidas como agentes carcinogênicos e estão presentes em vários gêneros alimentícios, como frutos do mar, queijos e nas carnes vermelhas.

No entanto, durante a quimioterapia não há uma restrição específica para a carne vermelha. Além disso, não existe essa ideia de ela aumentar o tumor. O que se preconiza é o consumo moderado, sem a necessidade de retirar o alimento por completo das refeições. Portanto, deve-se priorizar a variedade do que ingerimos, enfatizando o consumo de frutas, legumes e verduras, assim como a redução de açúcares e gorduras.

* Dica: O problema não é a carne vermelha, em si, mas a quantidade ingerida, que deve ser de até 300g por semana, o que equivale a cerca de três bifes grandes. Atenção: por semana!

— Chá verde deve ser evitado durante a químio?

O chá verde é comumente consumido como forma de contribuir para a prevenção do câncer por ser rico em flavonoides, atuando na ação antioxidante, antiinflamatória, antirreumática e anticâncer (protegendo o sistema de reparo do DNA). Contudo, durante o tratamento quimioterápico o chá verde pode prejudicar a eficácia de algumas drogas. É importante ressaltar que são necessários mais estudos sobre este tema. Na dúvida, consulte seu oncologista sobre a ingestão da bebida.

— O paciente não pode comer graviola?

A graviola deve ser evitada, pois o seu consumo durante o tratamento é tóxico para o fígado e rins. Como qualquer medicamento, as plantas não devem ser usadas indiscriminadamente, pois os princípios ativos que são benéficos para uma determinada doença podem ser danosos ou sem efeito para portadores de outras. Deste modo, a equipe médica e multidisciplinar deve ser informada e até mesmo questionar os pacientes sobre o uso de ervas e plantas. O chá da folha da graviola tem sido popularmente divulgado, sem que haja estudos científicos relevantes sobre a utilização do mesmo.

— Gengibre é recomendado para pacientes em quimioterapia?

O gengibre é um aliado do paciente em tratamento quimioterápico. Ele tem ação antiemética (alivia enjoos, náuseas e vômitos) e antiinflamatória. Estudos corroboram com a indicação de que uma colher de chá de gengibre pode diminuir as náuseas associadas ao tratamento de quimioterapia, efeito presente em torno de 70% dos pacientes. É importante frisar que não há necessidade de consumir o gengibre em cápsulas, pois a própria raiz pode ser adicionada ao preparo de chás, sucos e milkshakescontribuindo na diminuição dos sintomas durante o tratamento.

Depressão e Câncer

Por: Daniela Camargo – Psicóloga

As pessoas que recebem um diagnóstico de câncer, passam por vários níveis de estresse e angústia emocional. O medo da morte, a interrupção de planos futuros, as mudanças físicas e psíquicos, as mudanças do papel social e do estilo de vida, bem como as preocupações financeiras e legais são assuntos importantes para qualquer pessoa com câncer. Entretanto, nem todas as pessoas com diagnóstico de câncer sofrem uma depressão grave.

Existem muitas idéias preconcebidas e falsas sobre o câncer e sobre como vivem os pacientes com câncer. Por exemplo, a ideia de que todas as pessoas com câncer sofrem, obrigatoriamente, de depressão. Ou ainda, a idéia de que a depressão é normal nas pessoas com câncer, que no existe tratamento para ajudar com a depressão da pessoa com câncer, ou que todos os pacientes com câncer sofrem muitíssimo e têm uma morte muito dolorosa.

A tristeza e o pesar são reações normais às crises que se enfrenta ao se saber com câncer, e todos pacientes as sofrem num momento ou outro. Não obstante, sendo a tristeza comum nesses pacientes, será muito importante distinguir entre os níveis “normais” de tristeza e a depressão.

Uma das partes mais importantes no cuidado de pacientes com câncer é, exatamente, saber reconhecer quando necessitam de tratamento para a depressão. Algumas pessoas têm mais dificuldades que outras para aceitar o diagnóstico de câncer e a desadaptação à essa condição existencial pode precipitar uma Depressão Grave, a qual acaba acometendo 25% desses casos. Nesse caso, já não se trata simplesmente de estar triste ou desanimado.

Assim sendo, basicamente todos os pacientes com câncer sentem tristeza e pesar de forma periódica durante alguma fase de sua doença, seja no diagnóstico, durante o tratamento e/ou depois dele. Inicialmente, quando é comunicado o diagnóstico de câncer ao o paciente, a primeira reação emocional é de descrença, rejeição (negação) ou desespero.

Nessa fase de negação a pessoa pode ter problemas de insônia, perder o apetite, sentir-se angustiada e estar preocupada com o futuro. Esses sintomas podem diminuir conforme ela vai se acostumando com o diagnóstico.

Um dos sinais de que a pessoa está tendo melhor aceitação de sua doença, é a manutenção da capacidade para continuar participando das atividades diárias e sua habilidade para continuar cumprindo seu papel social, de cônjuge, pai (mãe), funcionário(a), etc, incorporando as sessões de tratamento em seu esquema de vida cotidiano.

Por outro lado e, inversamente, aquelas pessoas que demoram muito em aceitar o diagnóstico e perdem o interesse em suas atividades diárias pode ser um forte indício de Depressão.

Uma preocupação muitíssima importante é em relação aos pacientes que no demonstram sintomas óbvios e típicos de depressão. Esses terão uma série de manifestações emocionais patológicas não só extremamente molestas, como também, capazes de interferir negativamente na evolução do tratamento. Esses pacientes com depressão atípica também podem beneficiar-se muito do tratamento.

Tanto os indivíduos como as famílias que se enfrentam a um diagnóstico de câncer experimentaram diversos níveis de estresse e de perturbação emocional. A Depressão aparece como uma doença comórbida, aproximadamente 25% de todos pacientes com câncer (Henriksson – 1995). O medo da morte, alteração dos planos de vida, mudanças na imagem corporal, abalo na autoestima, mudanças na situação social e no estilo de vida, assim como preocupações econômicas e ocupacionais são assuntos importantes na vida de qualquer pessoa com câncer e, ainda assim, nem todos os que estão diagnosticados com câncer experimentam Depressão Grave, como se poderia pensar.

Existem muitos mitos sobre o câncer e da maneira como as pessoas o enfrentam. Alguns desses mitos seria, por exemplo: todas as pessoas com câncer estão deprimidas, a Depressão numa pessoa com câncer é normal, os tratamentos antidepressivos não ajudam a Depressão no câncer.

Mitos sobre o Câncer

Todas as pessoas com câncer estão deprimidas
Depressão numa pessoa com câncer é normal
Tratamentos não ajudam a Depressão no câncer
Todos com Câncer sofreram uma morte dolorosa

Sendo a tristeza uma reação comum à qual todas as pessoas com câncer têm que enfrentar e, sendo também a Depressão bastante comum nesses pacientes, é importante distinguirmos entre os graus normais dessa tristeza e os Transtornos Depressivos francos.

Dependendo da personalidade e do perfil afetivo de cada paciente, alguns podem ter severas dificuldades em se ajustar emocionalmente ao diagnóstico de câncer. O quadro a que estão sujeitas essas pessoas mais sensíveis não diz respeito, simplesmente, à tristeza, aos pensamentos negativos ou à falta de ânimo. Elas podem desenvolver a Depressão Grave (ou Maior). Como vimos, esses 15 a 20% de pacientes têm Depressão Maior e devem ser tratados, para que melhore a qualidade de vida e, principalmente, as perspectivas de sucesso no tratamento oncológico (Massie, 1987; Lynch, 1995).

A Reação Vivencial ao Câncer

Inicialmente, a resposta emocional diante do diagnóstico de câncer pode ser relativamente breve, durando alguns dias ou semanas, e pode incluir sentimentos de incredulidade e rejeição da doença ou, de desespero. Esta resposta emocional é considerada fisiologicamente normal e se situa dentro de um espectro de sintomas depressivos que vai, progressivamente, desde a tristeza normal, até um Transtorno de Adaptação do tipo depressivo ou, mais grave, até uma Depressão Maior. Em seguida vem um período de disforia, marcado por uma confusão emocional crescente. Durante este tempo a pessoa experimentará transtornos do sono e do apetite, ansiedade, ironias e críticas amargas e medo do futuro.

Além de algumas pesquisas apontarem entre 15 e 25% a porcentagem de pacientes com câncer que desenvolvem um quadro de Depressão emocional comórbida, outros estudos epidemiológicos indicam que, no mínimo, metade de todos as pessoas diagnosticadas com câncer se adaptou satisfatoriamente. Spencer (1998) sugeriu alguns indicadores sugestivos de adaptação satisfatória. Seriam:

  1. manter-se ativo nos afazeres cotidianos;
  2. reduzir ao mínimo o impacto da doença nos papeis cotidianos (de pai, cônjuge, empregado, etc.), e;
  3. controlar as emoções normais à doença.

Por outro lado, existem também indicadores sugestivos da necessidade de se efetuar uma intervenção o mais precoce possível:

Indícios da necessidade de tratamento para Depressão

  1. Antecedentes pessoais de Depressão;
  2. Sistema precário de respaldo social, tais como: ser solteiro, ter poucos amigos, ambiente de trabalho solitário;
  3. Crenças persistentes e irracionais ou negação à respeito do diagnóstico (alguns aidéticos se recusam a acreditar em sua doença);
  4. Prognóstico mais grave do tipo e estadiamento do câncer;
  5. Maior disfunção orgânica consequente ao câncer.

Alguns níveis de Depressão se consideram leves e subclínicos, normalmente quando inclui apenas alguns, mas não todos, dos critérios para o diagnóstico de Depressão Grave (Veja os critérios de diagnóstico em DSM.IV). Ainda se tratando de Depressão Leve, poderia ser também angustiante e necessitar de certa intervenção, como por exemplo, a terapia de grupo ou individual, tanto através de um profissional de saúde mental como dos vários grupos de apoio ou auto-ajuda (Meyer, 1995).

Mesmo na ausência de sintomas expressivos de Depressão muitos pacientes manifestam interesse na terapia de apoio, embora nem sempre esses pacientes são encaminhados a um profissional de saúde mental qualificado. Quando não tratados esses casos de Depressão (ainda que leves), depois de terem aparentemente desaparecido, podem recorrerem, se intensificarem e se tornarem duradouros (Massie, 1989; Massie, 1993; Weisman, 1976).

O diagnóstico psiquiátrico nas crianças com câncer

As informações sobre a incidência de depressão em crianças fisicamente saudáveis ainda são limitadas e, muitas vezes, contraditórias. Estudos, não tão recentes, em ambulatórios de pediatria mostram que 38% das crianças apresentam problemas suficientes para justificar uma intervenção psicológica-psiquiátrica.

Algumas pesquisas falam que, entre as idades de 7 a 12 anos, há uma incidência de depressão de 1,9%. Se esses números são verdadeiros, pode-se estimar entre 10 a 15% de alunos deprimidos nas escolas. Em 1982, uma comissão conjunta sobre Saúde Mental Pediátrica nos Estados Unidos indicava que 1,4 milhões de crianças abaixo dos 18 anos de idade, necessitavam de ajuda imediata para transtornos depressivos. (Deuber, 1982).

Em relação ao câncer, tudo leva a crer que a maioria das crianças é capaz de lidar com o caos emocional ocasionado pela doença, e não só dar mostras de boa adaptação mas, muitas vezes, fazendo isso melhor que os adultos com câncer e, frequentemente, muito melhor que seus pais.

Nos momentos imediatos e mediatos ao diagnóstico do câncer infantil os resultados podem ser diferentes. Crianças e pais entrevistadas imediatamente depois do diagnóstico do câncer tiveram significativamente mais problemas psicológicos do que as crianças e pais da população geral. Entretanto, em avaliações subsequentes, não havia nenhuma diferença na incidência de problemas psicológicos experimentados por crianças e pais nos dois grupos.