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Visão geral da medicina complementar e alternativa

Por Steven Novella , MD, Yale University School of Medicine

Medicina complementar e alternativa (MCA) engloba várias abordagens e tratamentos que historicamente não foram contemplados pela medicina convencional ocidental.

Muitas vezes a MCA é considerada a medicina que não se baseia nos princípios da medicina ocidental dominante. No entanto, essa caracterização não é estritamente precisa.

Provavelmente, as principais diferenças entre a MCA e a medicina tradicional dizem respeito a

  • Validação científica (se cientificamente validada, as práticas são consideradas dominantes)
  • A base de suas práticas (problema correlato)

A maioria das terapias MCA não foi validada cientificamente, e esse padrão foi usado para diferenciar os dois tipos de medicina. No entanto, o uso de alguns complementos nutricionais, frequentemente incluídos na MCA, foi cientificamente validado e pode ser considerado dominante. Algumas práticas da MCA são atualmente oferecidas em hospitais e algumas vezes reembolsadas pela medicina suplementar, o que dificulta a determinação dos limites entre a MCA e a medicina tradicional. Algumas escolas tradicionais de medicina, incluindo 45 escolas de medicina da América do Norte (Consortium of Academic Health Centers for Integrative Medicine), fornecem educação sobre MCA e medicina integrativa.

A medicina tradicional pretende basear suas práticas apenas nas melhores evidências científicas disponíveis. Em comparação, a MCA tende a basear suas práticas na filosofia — algumas vezes filosofias conflitantes e mesmo mutuamente exclusivas — e não depende de padrões rigorosos baseados em evidências.

Termos da MCA

Vários termos diferentes são usados nas práticas da MCA:Medicina complementar refere-se às práticas não convencionais utilizadas pela medicina dominante. Medicina alternativa refere-se às práticas não convencionais utilizadas em vez da medicina dominante. Medicina integrativa é cuidado da saúde que utiliza todas as abordagens terapêuticas apropriadas—convencionais e alternativas—em um sistema de referência que focaliza a relação terapêutica e a pessoa como um todo.

Até 38% dos adultos e 12% das crianças utilizaram a MCA em algum momento, dependendo da definição da MCA. Uma pesquisa National Health Interview (2012) indica que as terapias MCA mais comumente utilizadas incluem

  • Exercícios de respiração profunda (11%)
  • Yoga, tai chi e qi gong (10%)
  • Terapia de manipulação (8%)
  • Meditação (8%)
  • Yoga (6,1%)

O uso de outras terapias e abordagens MCA permanece baixo: homeopatia (2,2%), naturopatia (0,4%) e cura energética (0,5%). Uma pesquisa de 2012 informou que, nos EUA, 17,7% dos adultos utilizaram pelo menos um suplemento nutricional.

Como os pacientes se preocupam com críticas, eles nem sempre fornecem voluntariamente informações aos médicos sobre a utilização da MCA. Consequentemente, é muito importante que os médicos perguntem especificamente sobre a utilização da MCA (incluindo o uso de fitoterápicos e suplementos nutricionais) de forma aberta, sem julgar. Entender como os pacientes usam a MCA pode:

  • Fortalecer a relação e construir confiança
  • Fornecer uma oportunidade de discutir as evidências sobre a MCA e sua plausibilidade e riscos.
  • Às vezes é útil identificar e evitar interações potencialmente lesivas entre drogas e tratamentos MCA ou suplementos nutricionais.
  • Monitorar a evolução do paciente
  • Ajudar os pacientes a determinar se devem procurar profissionais específicos especializados ou diplomados em MCA
  • Aprender com as experiências dos pacientes que usam MCA

Eficácia

Criou-se, em 1992, o Office of Alternative Medicine dentro do National Institutes of Health (NIH), a fim de pesquisar a eficácia e a segurança das terapias alternativas. Em 1998, essa repartição deu origem ao National Center for Complementary and Alternative Medicine (NCCAM) e, em 2015, ele se tornou o National Center for Complementary and Integrative Health (NCCIH). Outros setores do NIH (p. ex., National Cancer Institute) também subsidiam algumas pesquisas em MCA. A revisão de 2009 da pesquisa financiada pela NCCAM constatou que, nos primeiros 10 anos, a NCCAM investiu 2,5 bilhões de dólares em estudos de terapias MCA sem fornecer evidências claras da eficácia para qualquer terapia MCA.

Há três tipos de sustentação para tratamentos com MCA:

  • Eficácia dos resultados clínicos como mostrada em ensaios clínicos controlados (considerada a evidência mais forte de uso clínico)
  • Evidência de mecanismo de ação fisiológico estabelecido (p. ex., modificação da atividade do ácido gama-aminobutírico no cérebro pela valeriana), embora evidências de um mecanismo de ação fisiológico validado não necessariamente indique eficácia em desfechos clínicos
  • Uso por períodos que variam de décadas a séculos (o que se considera uma forma de evidência experimental e não confiável)

Apesar desses desafios, foram projetados e realizados muitos estudos de alta qualidade das terapias MCA (p. ex., acupuntura e homeopatia). Por exemplo, um dos estudos1 determinou ser possível usar um duplo-cego na acupuntura quando um revestimento opaco contendo um agulha penetrante ou não penetrante era usado. Outro estudo2 comparou os efeitos da acupuntura (individualizada ou padronizada) aos da acupuntura simulada utilizando um palito de dente em um guia de agulha (e o tratamento habitual). Assim, usando placebos cuidadosamente projetados, os pesquisadores podem isolar os efeitos de algumas terapias MCA da resposta clínica geral. Para que terapias MCA sejam consideradas eficazes, as evidências devem mostrar que são mais eficazes do que o placebo.

Segurança

Embora a segurança da maioria das técnicas de CAM não tenha sido clinicamente estudada, vários destes tratamentos têm um bom registro de segurança. Vários tratamentos com MCA (p. ex., plantas não tóxicas, técnicas de corpo e mente, como meditação e ioga e práticas corporais como massagens) têm sido utilizados há milhares de anos e aparentemente não têm potencial para efeitos lesivos. Entretanto, há algumas considerações de segurança, incluindo as seguintes:

  • Uso de uma abordagem alternativa para tratar uma doença com risco de vida, que pode ser tratada com eficácia de forma convencional (p. ex., meningite, cetoacidose diabética, leucemia aguda), talvez seja o maior risco da MCA, mais do que o risco direto pelo tratamento por MCA
  • Toxicidade por certos preparados de ervas (p. ex., hepatoxicidade por alcaloides de pirrolizidina, Atractylis gummifera, chaparral, têucrio, tostão ou outros, nefrotoxicidade de Aristolochia, estimulação adrenérgica por efédra)
  • Contaminação (p. ex., contaminação por metais pesados em certas preparações de ervas chinesas e ayurvédicas, contaminação de outros produtos como um PC-SPES e algumas ervas chinesas, com outras drogas)
  • Interações entre tratamentos MCA (p. ex., botânicos, micronutrientes e outros suplementos alimentares) e outras drogas (p. ex., indução de enzimas do citocromo P-450 [CYP3A4] pela erva de São João, resultando em diminuição e atividade dos antirretrovirais, imunossupressores e outras drogas), particularmente quando a droga tem um índice terapêutico estreito
  • Como ocorre em qualquer manipulação física do corpo (incluindo técnicas das principais correntes como fisioterapia), lesão (p. ex., lesão de nervo ou medula por manipulação da coluna em pacientes de risco, contusões em pacientes com distúrbios hemorrágicos)
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